Política
A IA entrou na campanha eleitoral; e o “jingle do Osmarzinho” virou munição
Entenda como esse meme pode impactar nas eleições
Nos últimos três anos, o uso da Inteligência Artificial (IA) se expandiu de forma acelerada e assustadora, de modo que aplicativos cada vez mais simples permitem que qualquer pessoa faça suas próprias criações e as divulgue nas redes sociais. Hoje, a maioria dos conteúdos de humor presentes em plataformas como Instagram e TikTok possui alguma intervenção de IA, isso quando não é produzida 100% dessa maneira.
O avanço desenfreado da IA já vem sendo discutido e alertado pelas autoridades, e sua presença nas redes sociais virou um dos principais assuntos debatidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que criou, no dia 7 de agosto, um conselho para acompanhar a desinformação gerada por IA.
O grande problema envolve a criação de vídeos que possam, de alguma forma, gerar fake news capazes de influenciar o processo eleitoral. E, logo no início da campanha, um material específico tomou conta das redes sociais no último fim de semana.
Tudo começou quando o jingle de campanha de Omar Vieira, o Osmarzinho, foi resgatado e recriado por meio de IA. O jingle, em ritmo de forró, tem uma letra que trabalha com a velha tática do “quem melhorou a cidade” e é respondido com o nome do político. Mas, neste caso, a música funciona de maneira inversa, apontando supostos crimes ligados a Osmarzinho e à sua família.
Osmarzinho, que atualmente não é candidato a nenhum cargo, foi prefeito do município de Cocal dos Alves, no interior do Piauí, entre 2017 e 2024. Atualmente, Osmarzinho, que ainda tem familiares atuando na política do Estado, pediu a retirada da música das redes sociais. O jingle, claramente recriado por meio de IA, viralizou e passou a ser compartilhado em todo o Brasil.
Mas não parou por aí. O jingle ganhou tanta força nas redes sociais que a mesma música já foi refeita para outros políticos que seguem em campanha nas eleições de 2026. Até o fechamento desta matéria, já haviam sido criados jingles para o presidente Lula (PT), o candidato Flávio Bolsonaro (PL) e até mesmo para o candidato à reeleição ao Governo do Amazonas, Roberto Cidade (União Brasil).
Todos seguem a mesma premissa: uma letra irônica que aponta escândalos e polêmicas ligadas aos candidatos.
A divulgação dos jingles levanta muitas questões: quem foi o autor? Quem divulgou? Militâncias políticas estariam envolvidas no processo? Mas o principal e, provavelmente, mais relevante para o cidadão comum seria: eu posso ser preso por isso?
A reportagem do Portal Vixi Amazonas conversou com o professor e cientista político Helso Ribeiro, advogado e mestre, que acompanha de perto as eleições no Amazonas. Segundo o especialista, o cidadão comum precisa ter cuidado ao compartilhar esses vídeos, que, para muitos, não passam de uma piada de internet.
Segundo Helso, memes, ainda que tenham finalidade humorística, podem ser encarados como propaganda indevida, o que seria suficiente para que um candidato que se sinta atacado entre com uma ação na Justiça Eleitoral.
“Se alguém se sentir desrespeitado, caluniado, injuriado por algum tipo de propaganda indevida, esse alguém pode ter o direito de entrar com uma ação, e pode ser também uma ação na Justiça Eleitoral”, declarou.
Ainda de acordo com o especialista, um cidadão comum também pode ser punido, mesmo que o intuito tenha sido apenas divulgar um meme que considerou engraçado.
“Um eleitor que esteja passando um meme que calunie, difame alguém, ele pode responder também, porque você não precisa ter criado a notícia, mas você está veiculando”, explica Helso Ribeiro.
“Desde que alguém, algum candidato, se sinta caluniado, difamado, injuriado, desrespeitado, ele pode também recorrer à Justiça Eleitoral para que ela providencie a retirada daquele vídeo, áudio, meme, seja lá o que for, e com uma possível punição a quem está veiculando”, conclui o especialista.
Não é novidade que a Inteligência Artificial seria uma preocupação para a Justiça Eleitoral no pleito de 2026. Resta agora entender como esses casos serão tratados e, principalmente, se outros políticos serão alvos do famigerado jingle-meme do “Foi o Osmarzinho”.